segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O dia em que Guardiola apontou para o nosso "elo perdido"


O texto que vem a seguir é grande, sim, mas de indispensável leitura, eu diria. Foi retirado do Blog do Lúcio de Castro.

"Nada poderia ter sido melhor para o futebol brasileiro do que o humilhante massacre do Barcelona sobre o Santos. Não que este Barça não venha fazendo isso por aí, contra qualquer um, em qualquer lugar. Mas no caso específico desta final de Mundial, o mesmo sentimento generalizado, unânime tomou conta do país: em algum lugar do passado, em algum momento, perdemos o passo, a mão, a bola, o bolo desandou.

O tiro de misericórdia para não deixar dúvidas sobre a necessidade de uma reflexão profunda veio na coletiva de Guardiola: "O que tentamos fazer é tocar a bola o mais rápido possível. Na verdade, é o que o Brasil sempre fez, segundo me contavam meus pais e meus avós". Devastador. É preciso entender e traduzir as palavras do treinador: no lugar de provocar, tripudiar, escolheu a elegância habitual quase em tom de pedido, súplica de amante do futebol para que o Brasil retome suas origens. Foi isso que Guardiola fez: um pedido de amante do futebol, que se dói com esse Brasil do cínico pragmatismo.

Coisa para bom entendedor, daqueles para quem meia palavra basta. No caso, disse com todas as letras. Provavelmente desperdiçaremos a imensa chance para a reflexão. As palavras de Mano Menezes em seu blog pós-jogo indicam isso. Falaremos dela logo abaixo. Algumas breves pitacadas em busca desse “elo perdido” do futebol brasileiro se fazem necessárias. Coisas de dentro e de fora do campo.

Em primeiro lugar é preciso entender o que aconteceu, onde e no que perdemos o tal elo. Naquele exato momento em que se trocou a posse de bola, o toque envolvente do Brasil (agora do Barcelona e da Espanha) pela correria, pela obsessão do tal contra-ataque, pela bola parada, pelos duzentos zagueiros e pelos volantes cabeçudos em detrimento dos que sabem sair pro jogo. Quando deixamos de fabricar o meias, pegando todo garoto habilidoso da base e jogando pra frente ou pra volante paradão.

Enquanto isso, lá fora, estava em gestação o futebol de posse de bola, deslocamentos, jogadores sem posição fixa, troca de posições. O que o mesmo Japão tinha visto no Flamengo de Zico, em 1981.

É preciso todo cuidado do mundo agora para que a metralhadora não aponte para todos os lados. Ao contrário do que muitos irão dizer, ainda formamos bons jogadores. Mesmo para meias ou volantes com saída de jogo. Veja o atual brasileiro sub-20. Existem algumas pistas. Adryan, talentoso meia, transformado em homem de frente, aberto num 4/2/3/1, espelhando o esquema da moda por pura macaquice, e mais um talento se esvaindo. O mesmo é verificável nas demais equipes. Algum talento, sufocado em esquemas-espelho da mediocridade do time de cima.

Um pragmatismo cínico cada dia mais incorporado em nossas vidas responde muito por isso. Em todas as esferas. No torcedor que se omite e se exime da obrigação de tentar ver se a seleção ou seu time estão jogando bem, aceitando acriticamente o discurso cínico dos “professores”, que ironizam os que “querem ver espetáculo, que deveriam ir ao teatro”. Nesse falso dilema entre competição x espetáculo, perdeu-se o óbvio: a questão não é dar espetáculo, é JOGAR BEM, sempre o caminho mais indicado para a vitória. Jogando bem, forçosamente o tal espetáculo vem, mais isso é outra história.

Numa zona de conforto de salários astronômicos, nivelados com os maiores treinadores da Europa, referendados por cartolas mais preocupados em outras coisas do que na responsabilidade de ver seu time JOGAR BEM, nossos professores em sua maioria inundam seus times com 32 volantes cabeçudos, 88 zagueiros, contra-ataques e bolas paradas como arma maior. É o tal pragmatismo cínico que nos assolou e vai mudando nossa história.

O mesmo pragmatismo cínico que vi após a vitória do Barcelona dito tranquilamente na televisão em uma análise. “O jogo de hoje provou que precisamos repensar os conceitos de nosso futebol”. Dito por gente que há um ano atrás defendia com voracidade o pragmatismo de Dunga. Ora, das duas uma: ou você defende que se repensem conceitos depois de ver o Barça da posse de bola, da troca de passes e dos deslocamentos de jogadores sem posição fixa, ou você defendia vorazmente o modelo de Dunga, a antítese do Barcelona. Contra-ataque, bola parada, volantões fixos, meias pouco criativos...

A calma que o momento pede não pode permitir também o ressurgimento do complexo de vira-latas, ou querer ver isso aqui ou acolá. Achar que nos curvamos ainda no túnel (o que não houve), que isso ou aquilo, teorias que sempre surgem quando o Brasil perde, vindas geralmente de nossas classes dirigentes e elites, que assim, jogando a culpa na raia miúda, se exime de suas patacoadas e responsabilidades.

Estamos falando de um país capaz de uma das mais assombrosas transformações da história da humanidade: em menos de meio século, passamos de um país agrícola e subdesenvolvido para um país com assento entre as potências econômicas, o país onde o futuro chegou antes do que se esperava, a grande esperança para problemas da humanidade. Falta tanto, divisão de renda, educação, mas a transformação foi assombrosa, a ser contada um dia nos livros de história. E de mais a mais, quando Baggio olhou Romário no túnel ninguém elaborou teorias diminuindo o povo italiano. É preciso manter o foco na floresta, e não se distrair com o dedo que aponta a árvore...

A lição irá desgraçadamente se esvair. Basta ver as palavras de Mano Menezes depois do jogo em seu blog. No lugar da urgente autocrítica, o único culpado nominado foi... a crítica. “Aqui, nossos críticos ainda estão rotulando uma equipe de ofensiva ou defensiva pelo número de atacantes ou volantes que o seu técnico escala na formação inicial, e isso passa para o torcedor”. Então tá, a culpa é da crítica, que tem lá as suas, mas essa não, mano velho...Técnicos, assim como seu chefe na CBF, c...e andam para a crítica. Então olhe para o espelho e vamos aproveitar o momento para ver os próprios erros.

Falando no seu chefe, alguém imagina o mandatário acordando no domingo, às 8h30, vendo o jogo, a aula do Barça e depois ligando pro Mano, trocando ideias de futebol, falando da necessidade de reformularmos as coisas, novos conceitos, ou melhor, resgatar antigos conceitos, como disse Guardiola? Podemos explicar parte de nossos problemas por aí, não é, "Professor"?

A calma que pedimos para analisar o que se passa por aqui é providencial para falarmos do Barcelona. Um senhor time de futebol. Para a história. Um privilégio ver isso acontecendo em nosso tempo. Um belo trabalho na base. Mas é só. E isso é muita coisa. Muita coisa mesmo. É que temos também a mania, hipócrita e fruto também do cinismo, de querer que coisas do futebol, do campo, dos atletas, se transformem em “exemplos para a sociedade”.

E o cinismo das pessoas e muitas vezes a inocência de outras geralmente embarca nessa. Assim, acriticamente vamos aceitando idealizações sem respaldo na verdade. Ao Barcelona basta e já nos dá demais sendo um time espetacular de futebol, protagonista de uma revolução nas quatro linhas. Quando nos deixamos levar por idealizações, mundos perfeitos, exigir que homens se transformem em modelos, negligenciamos a verdade que não é tão aparente, nos deixamos levar por manipulações. O Barça, (suas categorias de base, seus princípios, seus atletas), não é modelo a ser seguido pela sociedade, como já se escuta aqui e ali, principalmente quando começam a mergulhar na busca das razões para o sucesso do time catalão.

Na presidência, está Sandro Rosell, amigo íntimo de Ricardo Teixeira, que vive em acusações mútuas também com seu antecessor. O homem que levou o patrocínio da Fundação Catar para o uniforme azul-grená. Um corpo que gerou e alimenta Sandro Rosell está longe de ser o modelo de sociedade que sonhamos. Um Barça que busca meninos talentosos na África ou América, ao arrepio da lei do artigo 19 da Fifa, um Barça com todos os pecados do mundo do futebol, e dificilmente seria diferente, sendo ele parte disso tudo. Um Barça que fez uma revolução nos campos, e isso, repito, é muita coisa. Isso diz respeito ao jogo que veneramos, e portanto a nossas vidas. Mas lá como aqui, devemos rejeitar idealizações. Digo porque começo a ver isso se repetir toda hora.

Mas isso é o menos importante aqui e agora. O importante é buscar o elo perdido, que é nossa sobrevivência como brasileiros, mestiços, cafuzos, mamelucos, capoeiras, Manés, Pelés, moleques. Aqueles que os avós do Guardiola contaram um dia ao menino. Algo que se perdeu no tal pragmatismo cínico aqui tratado, exemplificado nos nossos "professores", cartolas, imprensa acrítica, adepta do jornalismo de resultado, das arquibancadas cada dia mais gélidas e cínicas também, elitizadas sem o crioulo sem dente que botava água no feijão para levar seu amor incondicional ao estádio, substituído a cada dia pelo almofadinha que não conhece a derrota na vida. É ele que legitima esse modelo cínico da vitória a qualquer custo que vai nos matando em essência, conteúdo e forma. Até sermos cobrados por um técnico estrangeiro em coletiva."


Por Beto Passeri.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Nacional X Estrangeiro

Charge retirada do Lance!

A temporada do futebol brasileiro chegou ao fim e todas as atenções se voltaram para o Mundial de Clubes, sob o qual se criou tanta expectativa ao longo do ano. O Santos abriu mão do campeonato nacional para se concentrar no maior desafio do clube nos últimos tempos. Vencer o irritantemente perfeito Barcelona e se consagrar campeão do mundo pela terceira vez – a primeira desde Pelé.

Desse cenário, surgem as mais variadas discussões e uma gama de personalidades que nelas se envolvem. E os debates, numa visão mais amplificada, não se apoiam em argumentos táticos ou em números, como os “futebólogos” de plantão gostam; quase sempre partem para um tópico que transcende – e até por isso nele se aplica tanto – o futebol: Nacional x Estrangeiro.

No discurso popular, não há um contraponto, como a antropologia gosta de fazer. Não existe balança. Há sempre uma espécie de consciência coletiva (nem tão consciente assim) que nos faz acreditar que somos sempre piores como sociedade. Nossa rica cultura de miscigenação é recalcada nesse grande cérebro coletivo para dar lugar a idolatraria do produto estrangeiro.

É lá fora que estão as grandes multinacionais, que se fabricam os grandes objetos de desejo, que existem hospitais de primeiro mundo e onde o povo é educado de verdade. E perpetua-se, assim, o discurso de inferioridade generalizado que só diminui o tom quando o assunto é esporte e, obviamente, futebol.

Sempre defendemos o futebol brasileiro com todas as forças, tivemos certeza que os melhores jogadores da história são nossos e batemos no peito para dizer que somos pentacampeões mundiais. Curioso é observar que, com a globalização e os recentes fracassos da seleção, surge um movimento de pessoas que aprecia outro tipo de jogo, que gosta de disciplina tática ou que simplesmente valoriza mais os campeonatos estrangeiros.

Do outro lado, porém, há uma horda de críticos a essa gente e que, cansados do referido discurso de inferioridade, exaltam a superioridade do futebol nacional custe o que custar.

Com Barcelona e Santos em evidência e prestes a fazerem o confronto mais aguardado do ano, surge uma série de argumentos soltos e inconcebíveis que me fazem vir aqui colocar as coisas na balança.

O time catalão é, indiscutivelmente, o melhor time do mundo. Dizer que “queria ver o Barcelona jogar o Brasileirão” não é argumento, pois eu também gostaria de ver o Santos ganhar o Espanhol com 96 pontos e só duas derrotas. Não torço pelo Barcelona, nem pelo Santos e também não acho, como muita gente, que seria um milagre a vitória do time de Neymar.

O meu medo é que essa vitória garanta o rótulo que tantos querem de “melhor futebol do mundo”. E não é. O Santos pode vencer o Barcelona por 3 a 0 no domingo e eu continuarei achando os espanhóis melhores. Essa partida não vale nada em termos críticos, “só” a taça de campeão mundial. Ou tem como dizer que o Inter de 2006 era melhor que o Barcelona?

Não existe essa diferença abissal como muitos colocam, mas há diferença. O time de Guardiola joga o mesmo futebol encantador há muito tempo. Raramente perde, dificilmente faz uma atuação ruim, termina o jogo sempre com mais de 60% de posse e ganha títulos atrás de títulos. 

Não dá para dizer que, porque o Santos tem o futebol moleque de Neymar e Ganso, é superior. Não dá.

Futebol é futebol e um lance individual dos dois pode colocar o mundo aos pés dos meninos da Vila, mas vamos repensar essa história de melhor futebol do mundo. Nós revelamos muitos craques, mas podíamos revelar mais. Nós somos superiores em mundiais, mas poderíamos ser mais. Somos o maior país a ter o futebol como esporte número um, então somos “obrigados” a ser melhores nisso.

Ficamos tão traumatizados com o tal discurso coletivo de inferioridade que enchemos o nosso ego no mundo da bola como válvula de escape, até não poder mais. É preciso pensar. O que é o “melhor futebol”? E também, claro, o que é uma sociedade mais desenvolvida?

Por Beto Passeri.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um Cego na Coleira


Ao som de Ed Motta - Lobo Bobo

Que o amor é cego todo mundo sabe. Mas essa frase, de tão repetida, de tão desgastada, acaba por ter alguns de seus sentidos esvaziados. A cegueira do amor não se restringe às mudanças de gosto, a encontrar beleza onde, na opinião dos outros, não existe. Até porque, sobre esse aspecto, um outro ditado ('quem ama o feio, bonito lhe parece') já dá conta . A escuridão que se põe frente aos olhos dos apaixonados é mais abrangente: capaz de ignorar mandos e desmandos da amada, passar por cima de erros em nome de um bem maior, que é o próprio amor.

À beira do gramado do Santiago Bernabéu ontem havia um cego apaixonado. José Mourinho, o técnico do Real Madrid, está sofrendo dessa patologia que abate pessoas de todas as idades, cores e credos. Aliás, a palavra paixão vem do radical pathos, o mesmo que deu origem a patologia. O apaixonado em questão realmente acreditou que havia chegado a hora de sair da fila, ganhar da melhor equipe do mundo e finalmente espantar a alcunha de derrotado que já persegue o time de Madrid desde a ascensão do fantástico Barcelona.

O objeto amado pelo treinador português era seu próprio time. Uma equipe invicta há 15 jogos, que somou todos os pontos possíveis na fase de grupos da Champions League, com um lado esquerdo imbatível e um Camisa Sete em uma fase magistral. Essas eram as afirmações sob as quais Mourinho se baseava para acreditar cegamente no vistoso jeito de jogar do time que ele assiste todos os dias. A amada de Mourinho era realmente digna de todos os elogios, diga-se de passagem.

Contudo, Mourinho entorpeceu-se pela maneira que o Real jogava. Foi para cima do Barcelona, permanecendo com um esquema de três atacantes durante toda a partida. Negligenciou a falta de capacidade de decisão de Cristiano Ronaldo no histórico do confronto e a fragilidade defensiva do lado esquerdo de seu campo. Apesar de ter aberto o placar no começo do jogo em uma rara falha do time catalão, tomou três gols - um deles exatamente em um contra-ataque pelo lado de Marcelo - e assistiu um apático e ineficiente Cristiano Ronaldo no ataque. Tudo isso como resultado de sua cegueira.

No fim do jogo, abatido, o técnico desistiu de atribuir a culpa da derrota à arbitragem e assumiu o fardo do fracasso. O mesmo tom de humildade foi visto nas declarações dos jogadores madridistas, que antes também atribuíam a derrota a qualquer coisa que não a eles mesmos. A atitude mais racional da história dos confrontos Barça e Real da Era Mourinho observada nas palavras do grupo merengue pode ser o prenúncio do fim desse sentimento que cega o mais vitorioso treinador lusitano.

Nos últimos anos, somente a retrancada Inter de Milão foi capaz de eliminar o melhor time do Século XXI. E apenas ela foi capaz de ganhar a Liga dos Campeões após o surgimento desse time imbatível. Na ocasião, o compacto sistema defensivo Nerazurri alcançou o sucesso exatamente por abstrair vaidades. Isso serve de exemplo. Enquanto Mourinho estiver encoleirado pelo ideal de um jogo vistoso, embriagado pelo glamour que a cidade de Madrid inspira ao futebol, ele não conseguirá o sucesso.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Missão impossível ?

Neymar e cia. já estão no Japão, onde vão tentar conquistar o terceiro título mundial de clubes do Alvinegro Praiano. O dono do moicano mais falado do futebol leva na bagagem os troféus de melhor jogador do campeonato brasileiro, eleito tanto pela placar quanto pelo prêmio craque do brasileirão.

Mas a vida do Santos não vai ser nada fácil. Em primeiro lugar, devemos nos lembrar do ano passado, quando o Internacional foi surpreendido pelo Mazembe na semifinal e acabou saindo precocemente do torneio. Mas parece que o Santos se precaveu quanto a isso e deve entrar com seriedade desde o primeiro minuto. Em segundo lugar, o time de Muricy Ramalho vai pegar, se ambos chegarem à final, nada mais nada menos que o Barcelona. O time da Catalunha revolucionou o jeito de jogar futebol dos últimos tempos, sendo o toque de bola, a qualidade dos jogadores, e uma inovação do técnico Guardiola, que recua volantes para a zaga e adianta a marcação do ataque, fatores que tornam o Barça um time diferenciado.

A missão é difícil, mas nesse ano Neymar já mostrou ao mundo o que pode fazer com a bola nos pés, e o mundial será o momento ideal para Ganso mostrar que pode se tornar, assim como Neymar, também um dos melhores jogadores do mundo. Aa tarefas mais difíceis ficarão com: o técnico Muricy, que terá a dura missão de armar uma defesa que se comporte bem sem a bola, pois jogando contra o Barcelona é muito provável que fique menos tempo com a posse de bola. E, claro, para o escolhido para marcar Messi, o melhor jogador do mundo, sem dúvidas.

Será o duelo do "futebol moleque" do Santos, contra o taticamente perfeito do Barcelona. Quem leva essa taça ?

Por Felipe Exaltação

Imagem retirada do blog do Designer e Ilustrador Jácson Áprigio

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Morte e Vida em Oito Linhas


Para ouvir ao som de: Dia de Domingo - Tim Maia

O Grande Domingo do Futebol brasileiro de 2011 começou atrasado. A madrugada apaziguou a insônia dos inquietados torcedores, fazendo surgir o sono dos inocentes. O calendário só deixou para trás o dia três de dezembro por volta das quatro e meia da manhã, quando deu-se o último suspiro do já conhecido paciente da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein em São Paulo. Aquele reincidente barbudo passara pelo andar que recebia os mais graves enfermos três vezes em um curto período de tempo, todos os sinais haviam sido oferecidos. Em vão. Após uma vida célebre, morre Sócrates Brasileiro e começa a última rodada do Campeonato Brasileiro.

O estopim para o grande dia só deixa mais evidente uma batalha que, iniciada na última rodada do primeiro turno, permaneceu velada por longos meses. Desde o acidente vascular do técnico do Vasco no jogo contra o Flamengo, no Engenhão, uma oposição entre os dois primeiros colocados do Brasileirão configurou uma batalha homérica: de um lado a superação, a beleza e a vida com uma faixa diagonal e uma cruz no peito; do outro a auto-destruição, o pernicioso e a morte que vinha do Parque São Jorge.

As trevas acompanharam o Corinthians desde o Tolima, na primeira eliminação do ano. Um espírito sombrio  rondou o time paulista, originado pela corrupção e violência fora de campo. Relações tenebrosas com a CBF, a condecoração de Ronaldo com um cargo no conselho administrativo do Comitê Organizador Local da Copa de 2014 e a elevação de Andrés Sanchez ao posto de dirigente de seleções brasileiras são alguns dos fatos que colaboraram para que fossem tecidas essas paredes invisíveis de sordidez.

Do outro lado, aparece a luz de um Vasco da Gama esquecido no cenário futebolístico brasileiro. Com o pior princípio na história do Campeonato Carioca, o ano cruzmaltino já parecia perdido. Entretanto, vem a salvação: a chegada de uma nova comissão técnica, a conquista da Copa do Brasil, a reencarnação da vitória no corpo de Felipe, a reaparição do libertador da América Juninho Pernambucano e o nascimento de um líder como Dedé. Tudo isso gerou uma expectativa de um ano dourado, banhado por uma pluralidade de glórias.

E como símbolos desse combate surgem Ricardo Gomes e Sócrates. Dois ex-jogadores com destaque na Seleção Brasileira e passagens por grandes times europes. Porém as semelhanças cessam aí. Os dois tiveram trajetórias antagônicas; O Eterno Camisa Oito sob as marcas de uma vida banhada pelo álcool e com o estigma da decadência e o Técnico Vascaíno sempre circundado por um discurso de superação e abnegação. O epílogo da batalha entre luz e trevas aguardou o derradeiro fim do ídolo do corintiano e a alta médica do técnico responsável pela mudança da equipe de São Januário.  Às cinco horas da tarde de domingo antes da bola rolar, onze homens levantaram o braço, de punhos cerrados. Como Sócrates na sobriedade da explosão de um gol.

No Engenhão, um empate festivo coroou o ano cruzmaltino. Longe do fim, a luz de Ricardo Gomes promete mais trajetórias vitoriosas em 2012.  O time, esgotado pela sequência de partidas desse fim de ano, resistiu como pôde, mas acabou por levar um gol em um raro lampejo do Camisa Dez do time adversário. O grupo, apesar da segunda colocação, manteve-se erguido, convicto do bom trabalho realizado.O Vice campeonato teve sentido outro que não o velho valor de derrota.

Já em São Paulo, abriu-se um clarão em meio ao céu nublado. Depois da Via Sacra e de todo aquele penar, o Doutor da Fiel expurgou a penumbra que cercava a multidão de loucos que lotava o Pacaembu. Sócrates levou consigo os males que aterrorizavam aquela multidão, deixando apenas a alegria que somente uma alma libertária como a dele seria capaz de proporcionar. Andrés e Ronaldo saíram do Sport Club Corinthians Paulista, delegando às urnas a responsabilidade de eleger um presidente e iniciar um novo futuro. Veio o Pentacampeonato nacional para o time de um dos maiores líderes do esporte brasileiro.

Somente os bravos são capazes de transformar pessoas e ambientes para o bem em detrimento de seu próprio bem-estar. A experiência de Sócrates comprova o quão pesado é o fardo de quem é capaz de ver além do horizonte e deseja expandir a visão de seus semelhantes. Ontem, naquele segundo de silêncio no Estádio Paulo Machado de Carvalho, todos os ali presentes viveram a experiência proposta por aquele rapaz vindo do Pará, filho de um pai com o Ensino Fundamental incompleto e formado em Medicina. E foi exatamente aquela sensação que espantou o mal que atormentava o Corinthians nesse dia de Domingo.

Por Helcio Herbert Neto.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tempo de Previsões


                             


Fim do Campeonato e chega a hora daqueles que se esconderam durante todo o Brasileirão aparecerem com as previsões. Com a disputa restrita a duas equipes, os cronistas clarividentes têm maior chance de acertar e lançam suas apostas: os mais conservadores ignoram a alma que envolve o time de Dedé, Juninho Pernambucano e Felipe e apostam no Corinthians; os outros vão contra a estabilidade do metódico time que permaneceu na ponta a maior parte da competição e, fascinados pela ascensão do Vasco, preveem o time Cruzmaltino como o Campeão Nacional de 2011. Para mim, a banca já fechou. Meu palpite já foi dado em postagens anteriores e não convém repeti-lo sob a cornetas do apoteótico final do primeiro Campeonato Brasileiro dos Clássicos. Minhas previsões hoje são sobre temas muito mais fáceis de acertar.

Em mais um espetáculo televisionado, a Rocinha foi ocupada. Novamente sobe a bandeira nacional, renovam-se os votos por uma Olimpíada Pacífica no Rio de Janeiro e a popularidade do Governador tenta tornar a subir após meses de decadência. Adotando a tática americana de 'Guerra ao Terror', Sérgio Cabral vai invadindo esses Iraques e Afeganistões que temos nos morros por aqui. E nessa hora surge o velho discurso da chegada do progresso nos jornais, televisões e páginas da internet.

'A Rocinha é Nossa', anunciava O GLOBO no auge da euforia da ocupação, proclamando a Boa-Nova da chegada do Estado na Favela. O exército de mão-de-obra que acorda ainda pela madrugada e vai trabalhar, principalmente pelas ruas da Zona Sul e da Barra da Tijuca, muito próximas à favela,  é esquecido pelo editor do jornal mais poderoso do Rio de Janeiro. Segundo a manchete do jornal, aquela gente não era carioca, não era brasileira. Somente com a chegada da força, representada pela 'pacificadora' Polícia Militar, é que aquela multidão teve seu passaporte brasileiro aceito.

E é a partir de agora que começam as previsões nada esotéricas sobre o futuro da gente do morro. O Rio de Janeiro começa a resolver uma questão crucial para o mercado imobiliário. Diferentemente de outros municípios, o Rio não possui uma periferia bem definida. Isso causa a desvalorização de imóveis de classe média, além de náuseas na elite, que é obrigada a conviver com a  realidade dura da maior parte dos cariocas. Com a chegada da Paz Armada às favelas, tendo como o mais bem-definido exemplo a recém-ocupada Rocinha, aos poucos o progresso começará a mostrar sua opressão. Por meio de um discurso de 'obras de infraestrutura', alguns moradores serão desalocados. 

Contudo, essa será somente a primeira fase. Depois das obras de benefício 'público', vão chegar taxações e impostos. Nada de assustador, apenas valores simbólicos em um primeiro momento. Entretanto, com o passar do tempo, esse valor vai aumentando, bem como o valor dos imóveis na região. As propostas pelas casas que restaram será irresistível para aquele povo que sobrevive com mínimos salários. Como resultado da Ocupação Policial, acontecerá uma marcha para o oeste da cidade, onde o padrão de vida é inegavelmente mais barato.

Políticas para os bairros pobres da Zona Oeste e da Zona Norte não há. Transportes, moradia, educação, saúde permanecerão estagnadas. Os ex-moradores das comunidades ocupadas vão se aglutinar em regiões que não lhes oferecerão uma vida saudável. Dessa forma, acaba o processo de higienização da Zona Sul e dos bairros de classe média da Zona Norte que teve como estopim, como energia de ativação os espetáculos esportivos. A vida da parte mitificada do Rio de Janeiro fica cada vez mais bonita: menos pobreza, menos fome, menos constrangimento pela dor alheia. Resta apenas a paisagem extasiante e a brisa fresca do mar.

Seria um triste fim para a convivência que originou, entre outras coisas, a Bossa Nova e o amor incondicional pelo futebol. Não obstante, tudo aqui escrito não possui consistência teórica ou comprovação dos especialistas internacionais em futurologia. São somente palpites, divagações. Ainda há gente que acredita em Cartolas, Políticos e justiça social nas terras de São Sebastião. E quem sou eu pra destruir as esperanças dessas pessoas.

Por Helcio Herbert Neto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A última jogada de Ricardo Teixeira


"Olhe bem para esta foto.

Ela foi tirada na última terça-feira, por ocasião do jantar que o empresário José Victor Oliva (em pé, no meio, careca) ofereceu ao narrador Galvão Bueno, ao seu lado, taça de vinho na mão.

Note bem quem é a figura poderosa da imagem, o que está cercado pelos demais, no centro de tudo.

Sim, é ele, Andrés Sanchez, o ainda presidente do Corinthians, anunciado ontem como novo diretor de seleções da CBF.

Nos extremos opostos, à esquerda, o também empresário José Hawilla, e o cartola Ricardo Teixeira, uma relação que já foi sólida e que hoje quase que apenas mantém as aparências, tantos foram os tombos recentes sofridos pelo dono da Traffic.

Mas o essencial é mostrar como Teixeira aparece como coadjuvante, ao lado de Ronaldo Fenômeno, para entender o noticiário mais recente, que dá conta, também, de um convite do presidente da CBF e do COL para que o ex-jogador assuma o papel que Michel Platini fez na Copa da França e Franz Beckembauer desempenhou na Copa da Alemanha, como está na coluna Panorama Esportivo, de O Globo, de ontem.

Teixeira andava isolado a tal ponto que o deputado Romário o humilhou na Câmara dos Deputados e quase não houve reação da bancada da bola.

A Fifa até quis entregar sua cabeça a Dilma Rousseff que preferiu deixar o problema com a Fifa.

Externamente, Teixeira buscou os apoios de Jack Warner, da Concacaf, de Nicolás Leoz, da Conmebol, de Julio Grondona, da AFA e do quatari que a Fifa baniu, Bin Hammam, o homem que separou definitivamente Joseph Blatter de Teixeira.

E internamente, ao buscar sair dos holofotes, Teixeira, para voltar a ser o homem das sombras, das articulações de bastidores, chamou Sanchez para a CBF e Ronaldo para o COL.

E não há de ter sido à toa que disse, assim que tornou pública a contratação de Sanchez, diante dos jornalistas, que era preciso telefonar para Lula para contar a novidade.

Ele sabe que ninguém que tenha a simpatia de Lula estará isolado no Brasil."



Do Blog do Juca Kfouri.


Por Beto Passeri.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O despertar de um pesadelo


O Vasco joga daqui a pouco, em São Januário, contra a Universidad de Chile para cumprir tabela. Não questiono a importância da Copa Sul-Americana, tampouco tenho o resultado como previsível. Nada que se entenda. É que já não se trata mais de campeonato - ou de campeonatos se incluirmos aí o Brasileirão; não se trata mais de competição, de afirmar alguma coisa ou tirar mais sarro dos rivais.

O Vasco extrapolou a esfera do que era possível este ano, antes mesmo que ele acabasse – e não está nem perto de acabar para um time que disputa dois títulos dessa grandeza. Que dê Corinthians ou Fluminense no Brasileiro, que dê La U na Sul-Americana, que o Vasco sofra uma goleada em casa hoje, como sofreu o Flamengo. Pouco importa. 2011 é do Vasco. E é pra história.

Alguém (leia-se muita gente) menos atento e menos sensível pode dizer “por que ganhou uma Copa do Brasil e ainda está disputando dois títulos mesmo depois do problema do Ricardo Gomes?”. Isso, por si só, já seria motivo suficiente para pelo menos um grandioso parabéns ao Vasco. Mas não é.

O futebol não tem muita explicação, isso todo mundo já sabe. Mas meu lado racional me puxa a tentar compreender esse fantasma que assolou São Januário durante uma década inteira. Existe política no meio, escândalos, interesses, azar, uma série de fatores que não me levarão a lugar algum e que me fazem tentar compreender, então, outra coisa. O reflexo disso.

Campeão Brasileiro incontestável em 97, campeão carioca em 98. Nos pés de Edmundo, a humilhação do Rio de Janeiro e do resto do Brasil. Ainda em 98, a Libertadores; nos pés de Juninho, a conquista da América. O time que carrega o nome do heroico navegador português cruza os mares para fincar a bandeira no topo do mundo, mas por algum motivo desses que o futebol e nem a vida explicam, não deu.

Como que para expurgar o “fracasso” de uma época áurea, em 99 vem a conquista do extinto Rio-São Paulo, e em 2000 mais um Brasileiro e a conquista antológica da Mercosul. Como se fosse possível, o Gigante da Colina fica ainda maior. O clube com uma das histórias mais bonitas do Brasil, da luta pelos negros e dos títulos infindáveis parece ter chegado ao topo.

O Vasco se apequena a partir daí, e um título Carioca em 2003 é a única coisa considerável da pior época do clube. O cruzmaltino ganha a humilhante fama de “vice” do seu maior rival, Flamengo, e o rebaixamento em 2008 submete seus torcedores a uma vergonha que não pode ser definida com palavras. Um ano inteiro que representa uma década de silêncio. A ausência de conquistas, o desgosto pelas imundices políticas e a falta de identificação com os seguidos times.

Mas falamos de Gigante. Mais que uma história e um símbolo, uma legião de apaixonados incondicionais. Dia após dia, jogo após jogo e, acima de tudo, lágrima após lágrima, o Vasco se livra do poço de 2009, e em 2010 está de volta à elite do futebol.

Um ano apático, sem gosto, sem sentido. Um ano que serviu para reequilíbrio, mas que era impossível de ser enxergado. E 2011 começa impiedoso, com o pior início da história no Carioca e com torcedores cansados das chagas impostas pelo destino do futebol. Eis que surge a figura de Ricardo Gomes.

O time que era "fraco" começa a se fechar, ganhar corpo e vai à final da Copa do Brasil. Após dois jogos, onde por muitas vezes a multidão de vascaínos pensou se o destino poderia ou não ser tão cruel, onde o mais otimista dos torcedores mantinha um dos pés – maltratado pelos últimos anos – atrás, o Vasco se sagrou campeão da Copa do Brasil e assegurou sua vaga na Libertadores depois de onze longos anos.


O normal seria se acomodar e se preparar para o ano seguinte, como fazem – erroneamente – todos os times que asseguram vaga antecipada para a Libertadores. Mas não se trata, como disse, de UM título, de uma vaga ou de um bom ano.

Com o retorno, por tanto tempo aguardado, de Juninho, e com o time confiante, Ricardo Gomes sentiu que dava. E estava dando. Mas a pressão foi demais e um AVC acometeu o técnico cruzmaltino ao fim do primeiro turno.

Qualquer um se abate com a queda de seu comandante, qualquer exército recua com a perda de seu general. Mas eu falo de 16 milhões de vozes de comando. Eu falo de um "sentimento que não para", que não tem tempo para parar. E eu falo de um time maduro, que assimilou sua missão perante aos obstáculos e não tomou conhecimento.

Eu falo de um zagueiro que se tornou mito para sua torcida. Eu falo de um dos maiores ídolos da história do clube com a eternizada camisa 8; falo de um Felipe consciente da grandeza do Vasco e do seu dever como maestro. Falo de um Diego Souza que entendeu, na dor de um passado recente, como é se apegar mesmo a uma camisa. E falo do sentimento que norteia esse time inteiro e sua torcida. A identificação e a vontade fazem o Vasco entrar em campo quase que num ar de vingança e vencer seus adversários.

A vingança doce e saudável por uma década inteira de sofrimento, por cada lágrima derrubada na camisa desgastada de tanto torcer em vão. A vingança por cada grito de euforia rubro-negro em 2009 e tricolor em 2010 nos títulos brasileiros. A vingança pela impotência em que o clube se encontrou em determinado momento e que, não fosse tamanha paixão, faria o torcedor ver naquilo uma realidade. Não era realidade. Esta é. O pesadelo acabou, Vasco da Gama.


Por Beto Passeri.

domingo, 20 de novembro de 2011

Aos Iluminados


Andamos por aí cometendo erros a toda hora. Os especialistas analisam de fora, sentenciam a imoralidade de nossos atos e determinam o fracasso de nossas jornadas. Como reflexo desse julgamento externo sucumbimos, sentimos o peso das palavras alheias. Contudo, o tempo passa. O caminho tortuoso mostra-se com destino certo, e a vitória vem. Na manhã seguinte, um mar de sorrisos hipócritas inunda a vizinhança, os que alardeavam o fim próximo aplaudem efusivamente a auto-determinação do vencedor.

Assim também é o percurso de Adriano. Diferentemente da carreira de Ronaldo, o Imperador não teve em limitações físicas suas barreiras. O atual Camisa 10 do Corinthians sempre padeceu de seu comportamento nada ortodoxo, por suas escolhas. Isso põe ele mais ainda sob os julgamentos dos especialistas na vida humana que comentam o futebol como profissão. Apesar de ter vivido inúmeros problemas em sua vida pessoal e ter passado por duas lesões consecutivas em um período pouco maior que um ano, vinham as críticas. Gordo, irresponsável, bandido.

E lá continuava Adriano. Unido aos seus companheiros, treinando, ouvindo. Parecia que finalmente, nesse momento, as profecias da moral iam se legitimar e o Imperador ia sucumbir, cair de joelhos. O Corinthians conseguia se manter na briga pelo título pela raça, pela vontade. Entretanto, faltava alguma coisa. Uma coisa que os Flamenguistas viveram em 2009 e que anda escassa por esses dias. Um sentimento que parte de uma figura única, que contraria as convenções e permanece humana apesar do mercado que abraça o futebol hoje em dia.

Errou quem pensou que essa luz capaz de sacramentar o Corinthians como campeão Brasileiro de 2011 viria da habilidade da mais cara contratação do futebol paulista nesse ano. Todavia, esse erro é comum. Os dirigentes do Flamengo também acreditavam que com a habilidade de um dos melhores jogadores da década conseguiriam montar um elenco campeão. Ledo engano. Pensar que o esporte das multidões é movido somente pela técnica é uma ignorância sem tamanho. O feixe luminoso capaz de iluminar o precário e instável universo corintiano vem das ações dos que erram e tem a dignidade de reescrever a história, dos que tem a bravura de não se abater; vem da personalidade de Adriano.

Ele que sempre esteve lá, que fez parte dos bastidores da tensa temporada no Parque São Jorge, que foi o mártir daquele grupo. Agora faltam dois jogos, duas batalhas, para abater o forte time do Vasco que ainda permanece na luta. Talvez a mais estável, essa equipe de São Januário foi a responsável por expurgar as trevas que pairavam por São Cristóvão há dez anos. Fácil? Não. E quem disse que o caminho fácil é o mais encantador?

Adriano, hoje, foi todos nós. Todos que insistem em viver, em errar e, por exaustão, acabam por vencer.


Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quem leva o "caneco" ?



Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo e até o Figueirense. Esses seis times chegam na reta final do campeonato com chances de conquistar o título.

O Corinthians, com um time bem montado por Tite, está na ponta, mas vem querendo a cada rodada entregar a liderança. Considerado por muitos um time sem estrelas, mas com elenco forte, o "Timão" depende muito do coletivo para triunfar.

O Vasco vem logo atrás; com um time experiente e com muita força no campeonato, o time de São Januário busca um título em homenagem ao treinador Ricardo Gomes (que sofreu um AVC) e para o
ex-massagista do clube, Pai Santana, que faleceu recentemente.

O atual campeão brasileiro parece que resolveu acordar para o campeonato e manter a taça em Laranjeiras. Com a melhor campanha do segundo turno e muito embalado, o tricolor carioca vem forte nessa disputa.

O Botafogo, dentre os postulantes ao título, parece o menos confiante, eu diria. O treinador não agrada a torcida, que volta e meia o chama de burro e pede sua saída. Mas com o, que eu considero, melhor meio campo do Brasil, liderado por Renato, que voltou para o Brasil esbanjando categoria, ainda tem chances.

O Flamengo começou bem o campeonato, seguiu invicto até quase o final do primeiro turno, depois passou dez jogos sem vencer. Em qualquer outro campeonato do mundo, o Flamengo não estaria brigando pelo título, mas como esse campeonato é tão parelho, o time de Ronaldinho Gaúcho ainda sonha com o Hepta.

Voltemos ao começo do campeonato, onde comentaristas e torcedores davam seus pitacos sobre o possível campeão. Nem o mais otimista dos torcedores do Figueirense apostava no título, o mais audacioso cogitava libertadores. E está aí. O Figueirense, comandado brilhantemente por
Jorginho, e jogando da mesma forma dentro e fora de casa, está sim na briga.

E em um campeonato em que o lanterna de vez em quando apronta pra cima dos líderes e um time que era citado como favorito ao título está brigando pra não cair (Cruzeiro), não seria nenhuma surpresa se o "caneco" acabasse na sala de troféus do Orlando Scarpelli.


Por Felipe Exaltação.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dividir para Conquistar


Nada mais propício para a criação de um ambiente amigável para a recepção de grandes espetáculos do esporte do que a fragmentação. Pelo menos é isso que demonstram as articulações de políticos e autoridades responsáveis por federações esportivas internacionais em relação ao cenário Brasileiro para a realização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Em uma guerra de vaidades entre governantes, FIFA, COI e cartões-postais, os Estados da União acabam por dificultar a realização de eventos capazes de distribuir de maneira mais equânime possível as benesses trazidas nessa empreitada. E o pior é que a população assimila esse roteiro de intrigas e já o toma como seu.

É bem verdade que, historicamente, o processo de intensificação do federalismo é marcado por sístoles e diástoles. Geralmente os momentos mais tensos têm como estopim a saída de um líder carismático e o surgimento de um hiato no imaginário do povo. Basta recordar da efervescência das aristocracias após a saída de Dom Pedro I, exigindo a posse de um Imperador pré-adolescente, que recém saído das fraldas, haveria de tomar conta de um império tropical. Ou mesmo após a saída do Segundo Pedro, a implementação de uma República e a sucessão entre São Paulo e Minas Gerais na Presidência, que trouxeram insatisfação a vários outros estados do país. A Solução veio do Rio Grande do Sul e culminou no Populismo Varguista.

Após uma linhagem de presidentes populares, vem o Golpe e a vontade de calar reclamações. Um federalismo sem-graça, que mais partia de uma precaução Militar do que de uma vontade regional, já que nessa época eram escassas as vontades que ainda estavam, literalmente, vivas. Depois vieram a Anistia, a Reabertura, as eleições. O discurso de representação regional ficou de lado, esquecido quando observado o panorama político. Entretanto, nas relações do dia-a-dia, as rivalidades permaneceram latentes, mesmo que pequenas brincadeiras.

O bravo Rio Grande do Sul, seu platinismo e o distanciamento do resto do país; As rixas entre os estados nordestinos; A cisão do Pará; Os arquirivais Rio e São Paulo. Temas recorrentes nas ruas, bares, escolas e jornaleiros que, muitas vezes, entram até no cenário futebolístico. O bairrismo clubístico é um exemplo disso. E é desse discurso que os organizadores das Olimpíadas e da Copa do Mundo se apóiam para deixar de lado os anseios populares e dominar essa organização. Como no Imperialismo Europeu na Ásia e África no século XIX: dividir para conquistar.

É evidente a euforia no Rio de Janeiro, basta notar a especulação imobiliária. A Cidade-sede da Olimpíada de 2016 gera inveja dos governantes dos outros estados ao sorrir como nos tempos da Velha Guanabara, apesar de seu Maracanã deflorado e de sua gente varrida como poeira pelas remoções. Também é notório o afastamento de Dilma em relação a Teixeira e à FIFA. Contudo, dissociar o Maior Palco Popular do Mundo da Seleção Verde e Amarela é um pecado imperdoável, tal qual repartir a África como Pizza e saborear seus diamantes na sobremesa.

Aproveitando-se da conjuntura, a CBF distribui os jogos para estados de Tucanos, rivais do PT, como resposta a falta de carinho da Presidenta. Assim, incentivou mais o choque entre os moradores de localidades diferentes do Brasil. Fazem parte da mesma estratégia o leilão pela partida de abertura e pelo centro de imprensa, e a criação de estádios que mais parecem discos voadores alienígenas em áreas com pouca expressão no cenário da bola. Juntam-se ao Circo as bajulações de prefeitos e governadores e uma suposta vitória no embate com a FIFA na questão da meia-entrada na Copa. Tudo politicagem barata que fomenta um amor cego ao estado esquecido há anos.

Quilometricamente distante dessas discussões está a luta pela chegada do desenvolvimento ao povo brasileiro por meio desses eventos esportivos que o país receberá. Longe do noticiário, abandonadas nos cantos de páginas, a varredura das favelas para a Zona Oeste, o esquecimento do esporte educacional e a manutenção do controle dos transportes nas mãos de um pequeno e ganancioso grupo de empresários que pouco se importa com a eficiência do serviço prestado parecem não ter importância. O necessário é saber quanto o rival do estado ao lado perdeu na distribuição de migalhas na porta da Igreja da FIFA: enquanto começa nossa briga tribal, enchem-se os bolsos do Comando Delta.


Por Helcio Herbert Neto.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Futebopatia: 24 horas



13 horas. Mal os olhos se abrem e a confirmação de que o domingo nasceu vem da mesma forma como em quase todas as outras vezes até onde sua memória alcança. A cabeça girando estática no travesseiro, a saliva – escassa- com o gosto putrefato de anteontem, e o sol perfurando a cortina para torrar a pele besuntada em óleo do semimorto em questão caracterizam uma ressaca que o faz lembrar que está bem vivo.

Se já não fosse uma espécie de hábito dominical, teria permanecido ali, imóvel, horas e horas, até morrer desidratado. Mas levantou rápido, esquivando-se das lambidas do cão incompreendido que não compreende as cicatrizes do álcool. Meteu a mão na maior garrafa de água que viu na geladeira e quase a terminou em uma talagada só enquanto se dirigia ao banheiro.

Ali era onde ocorria uma espécie de milagre da ressurreição: terminava sua água – quase benta -, ingeria um daqueles comprimidos salvadores, escovava duas ou três vezes os dentes e se enfiava numa ducha de água gelada que lhe lavava o fígado, ou melhor, a alma.

14 horas. Está novo de novo, vivo e mais faminto do que nunca. Esquenta rapidamente o almoço no micro-ondas e abre o jornal que tanto critica para criticar. O caderno de esportes fica como uma espécie de bandeja embaixo do prato, e a refeição segue vagarosamente sob ponderações e ressalvas às matérias e colunas impressas em papel velho.

15 horas. Ainda falta para o evento principal do dia, então ele liga o computador e vai caçar futebol aonde realmente gosta. Desbrava os portais de cima a baixo, revê o igual do jornal impresso, lê e comenta os blogs que segue, e quando se sente satisfeito de conteúdo esportivo, a comida está fazendo efeito, sua última ponta de dor de cabeça se esvai e já é hora de encontrar os amigos.

17 horas. Sob o álibi da ressaca e da distância, eles trocam o calor do Engenho de Dentro pelo conforto do bar perto de casa para assistir Flamengo e Cruzeiro. Opiniões divergentes na mesa temperam a discussão suculenta que vai sendo beliscada junto com a cerveja estúpida enquanto o Urubu engole a Raposa por 5 a 1.

19 horas. Já havia começado Fluminense e Inter quando o garçom, sob ordens, mudou o canal. Tudo fica mais fácil. A concentração na TV diminui, os goles e a conversa se intensificam, e o jogo, apesar de bom, pode terminar porque o empate é o melhor resultado.

21 horas. Do bar para a pelada sagrada de todo domingo. Ali os homens despem-se de suas profissões para se vestirem e se sentirem como jogadores que sempre sonharam ser. E enquanto os times são escolhidos, abandonam os bordões de suas respectivas carreiras para falarem uma só língua ao discutirem os resultados da rodada do Brasileirão.

23 horas. O banho não ameniza a adrenalina do futebol, e o sono, então, se torna difícil. Saturado de ouvir os comentaristas e sem saco para filmes ou seriados, ele liga o videogame e joga uma meia dúzia de partidas de futebol virtual antes de se render à cama.

00 às 9 horas. Sonha com o chutaço disparado na pelada, que bateu na trave, entrando, mas na comemoração a arquibancada fica enorme, torcedores gritam o seu nome e ele abraça companheiros com a camisa da seleção brasileira. Entre uma imagem e outra, palavras picadas que não fazem sentido algum, mas que serão úteis no dia seguinte.

13 horas. E foram. 24 horas de futebol, como em todos os domingos.



Por Beto Passeri.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Série Marginalizados: Fruto dos Rios de Euforia

Para ler ao som de: O Rappa - Papo de Surdo e Mudo

Sempre que cai a alvorada no bairro cumprem-se os dogmas do velho ritual pagão. Quando o Sol ousa repousar na encosta verde da Floresta da Tijuca, os bares recebem a gente da área, que, antes do último feixe luminoso, já inunda as ruas com bancos, cadeiras e alegrias. Dispostos a superar os problemas e a celebrar mais um dia que se vai, o povo encontra abrigo entre serras e rios, nessa terra onde paira o cheiro da madrugada.

Aldeia Campista. Interseção entre Vila Isabel, a Tijuca e o Andaraí, a região recebeu de braços abertos a família Dos Santos na chegada à Capital Federal. Vindos do interior do Maranhão, Dona Rosa e sua prole seguiram o fluxo dos nordestinos brasileiros. A fuga da seca, da fome e da sede traz os filhos do chão rachado ao Rio de Janeiro. Entretanto, um dos filhos dessa sofrida e batalhadora mulher teria o dom de brilhar nos gramados e espantar a dura miséria semi-árida nacional.

Era fim da década de Vinte e a Zona Norte não conseguia imaginar o fim de seu sofrimento. O filho de Dona Rosa via isso diariamente no trajeto que fazia até Bangu, onde jogava bola. O negro alto e forte não se destacava somente por seu porte. Uma habilidade incomum chamava atenção de quem assistia qualquer 5 minutos de seu futebol. Por mérito, chegou ao primeiro time do Bangu. Era adorado por seus companheiros de time, já que distribuía entre seus colegas os mais fáceis gols da história do Futebol Amador. Rapidamente, seu nome virou sinônimo de celebração.

Celebração no esporte, quando matava a bola no peito e a torcida vibrava com a iminência de uma bela jogada. Celebração na vida, quando erguia o copo e comemorava cada gol na noite carioca. Famoso freqüentador das abafadas e atraentes madrugadas do Rio, o nome de Fausto já era notável; tinha destaque nas manchetes dos periódicos esportivos e emanava das aguardentes nas esquinas do Subúrbio.

Com as longas e boêmias noites, Bangu ficava cada vez mais distante. A longa viagem começava a ser o álibi de atrasos e faltas. Largar a madrugada e dedicar-se plenamente a vida de atleta? Nunca. Buscar um clube que fosse mais próximo das redondezas do Rio Maracanã parecia uma alternativa mais plausível.

A camisa negra e a Cruz de Malta receberiam o meia que abandonara o clube alvi-rubro. Muito mais próximo da casa de Fausto, o Vasco seria sua nova residência futebolística. Sob a égide do nome do desbravador português, vieram títulos e a consagração popular. O filho do Maranhão caiu nos braços da torcida. Deleitou-se com a fama. Banhado pela euforia dos cruzmaltinos e pelo doce sabor da cevada, Fausto chegou à Seleção Brasileira.

Pouco tempo depois, chegava o primeiro Mundial de Futebol. O planeta suspirava só de pensar em ver todos os grandes jogadores da Terra se confrontando para decidir quem seria o Maior. Tendo como plano de fundo o misterioso e desconhecido universo das Copas do Mundo, a seleção brasileira desembarcava no Uruguai. E coube a Fausto ser o destaque do Brasil na Primeira Copa.

Um time desorganizado e inconseqüente. Uma equipe de homens que sentiram a pressão e que tremeu perante os adversários. Nada disso foi capaz de ofuscar as grandes apresentações de Fausto dos Santos. As atuações individuais do craque vascaíno fizeram com que a torcida e a crítica passassem a chamá-lo de ‘Maravilha Negra’. Apesar das grandes exibições do Meia, o time brasileiro sucumbiu frente aos gélidos iugoslavos. Somente o maravilhoso negro maranhense foi absolvido pelo povo.

Ao voltar para os bares da Aldeia Campista, um sentimento estranho tomou a vida do filho de Dona Rosa. Ser o único respeitado em toda uma lista de selecionados causou um sentimento de Solidão. Para celebrar o clamor popular por seu nome, entornava mais um copo. Para esquecer a eliminação e o desempenho pífio do seu time, tragava mais uma dose. O ritmo de Fausto se tornava cada vez mais alucinante.

Alucinante e estafante. Uma gripe interminável assustava Dona Rosa. Onde já se viu vida assim? Atleta deve esbanjar saúde, ter hábitos disciplinados. Mas Fausto era exatamente o avesso dessa imagem. Mais magro, pálido e festeiro, a Maravilha Negra andava abatida. Fugia de médicos com a mesma eficiência com que escapava dos marcadores. Ouvir um homem de branco era ter a confirmação de uma verdade que era muito menos dolorosa sob a forma de suposição.

As tosses e febres tiraram-no do Mundial de 34. Como que prevendo uma despedida derradeira, foi à Europa para varrer a miséria da vida de sua família. Chegou ao Barcelona com status de astro. E, realmente, emanou luz. Levou o time Azul-Grená a um Campeonato Catalão e apresentou às espanholas o valor da gente da terra do samba.

Encontrou muito nas noites européias. Mulheres, bebidas, glamour. Não obstante, a saudade foi mais forte do que todas as benesses da vida de jogador profissional. Sua família, seu bairro, seus amores e amigos. Tudo estava no Brasil. Após uma rápida passagem no futebol e na noite da Suíça, voltou aos incandescentes paralelepípedos do Norte da Guanabara.

No retorno, o habilidoso meio-campo encontrou portas fechadas no Vasco da Gama. Sem oportunidades no clube em que mais brilhou, teve de encontrar o afago no time Rubro-Negro da Zona Sul. Contudo, ele já não era o mesmo. Incapaz de jogar uma partida completa, os torcedores desconfiavam da abnegação de Fausto. Entretanto, a culpa não era de sua dedicação. A boa e velha gripe se intensificou, privando-lhe até mesmo das suas confidentes madrugadas. As cinzas das horas marcavam o futuro da Maravilha Negra.

Tuberculose. Não adiantou driblar por tanto tempo os médicos, o destino é impiedoso. Como golpe final e irremediável, foi levado para um manicômio no interior do Brasil. Terra de ares limpos, puros e sóbrios. Acompanhado por sua mulher, passou seus últimos dias distante do barulho de seu povo e do movimento de seu ambiente predileto: a Aldeia Campista. Em meio a loucos e enfermos, Fausto disse adeus ao futebol e à festa que pôs em prática nessa vida.

A Aldeia Campista desapareceu. Foi engolida pela expansão comercial da Tijuca. Ninguém mais conhece a região pelo antigo nome. Todavia, é só o Astro-Rei demonstrar o cansaço por mais um dia de luz que o povo das redondezas das terras de Fausto repete a centenária procissão. Aquelas esquinas, que recebem jovens e velhos, ricos e pobres, contam a história do homem que espantou o mundo e que um dia foi chamado de Maravilha Negra. Todos que por ali bebem e celebram a oportunidade de estar respirando, altivos, celebram também, inconscientemente, a vida de Fausto; o símbolo do espírito daquele lugar.


Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Verdade com palavras fáceis


Morreu hoje pela manhã talvez o último resquício do período clássico do futebol brasileiro. Luiz Mendes, o Comentarista da Palavra Fácil e da mais preciosa memória do esporte, foi vítima, aos 87 anos, de um câncer que já o abatia há tempos. Esse célebre radialista deixa saudades e lembranças preciosas para aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Por uma efêmera manhã, este que vos fala teve a felicidade de estar com esse grande personagem. E, da boca de Luís Mendes, tive a chance única de obter a comprovação de uma verdade preciosa, que esvai-se ao longo do tempo.

Era uma manhã cinza de um sábado. Após uma longa noite fora de casa, em meio à noite da Zona Sul carioca, chego em casa já ao amanhecer. Poucas horas depois, um compromisso bate a porte. Havia me inscrito em um Fórum Jornalístico, como pude me esquecer? Ainda que relutante a abandonar o amável e aconchegante travesseiro, tomo a decisão de me levantar e ir, mesmo que atrasado, para o encontro. O evento contava com diversas figuras imponentes do jornalismo esportivo, dentre eles, Luiz Mendes. É, aquele velhinho, que aparecia de vez em quando na televisão.

Ao chegar no auditório, encontrei apenas um companheiro. Sim, eu havia chegado antes da própria produção das palestras. O prevenido amigo da fileira da frente mal entendeu minha dificuldade de ficar acordado naquela espera que parecia interminável. Aos poucos as outras pessoas iam chegando, acomodando-se nos assentos e comentando sobre as suas expectativas. Para mim, cada pessoa que chegava era como um eficiente despertador digital. Fui sendo acordado assim, com requintes de crueldade, até desistir, definitivamente, de cochilar.

Começa o evento. O apresentador agradece ao público pela presença, cumpre as cerimônias e evoca o primeiro palestrante. Seria exatamente Luiz Mendes o responsável por abrir o evento e manter-me acordado. O assunto foi acontecendo, como uma chuva de fim de tarde em um domingo. Rapidamente, compreendi a razão pela qual aquele homem era conhecido como o Comentarista da Palavra Fácil: a maneira como ele passava o universo de suas experiências era leve, divertido. Não havia mais sono. Apenas uma compenetração de quem tem a convicção de que está vivendo um momento único.

O tempo passou e o bate-papo, infelizmente, acabou. Sempre solicito, Luiz Mendes aguardou fora do auditório àqueles que desejavam tirar uma foto e guardar para posteridade esse momento inesquecível. E lá fui eu, sem câmera, mas com uma caneta, um papel e uma ideia na cabeça. Durante sua participação, ele declamou sua adoração pelo futebol de Garrincha e Zizinho. Foi nesse instante que eu percebi que poderia aproveitar a oportunidade para tirar uma dúvida.

Sempre fui contra essa idolatria maluca que culmina com a denominação de alguém de Rei. Para mim, a Humanidade já exorcizou a monarquia e todos seus poderes absolutos desde a Queda da Bastilha. Pelé era um grande nome do futebol, um personagem único, mas que nada havia feito pelo povo brasileiro para ter tal título de nobreza. Questionar a hegemonia de Pelé no Brasil é uma heresia tão grande quanto cuspir em uma imagem santa ou acreditar que existe alguma alternativa para o sistema econômico e social em que vivemos. Mas seria mesmo Pelé isso tudo?

Após uma sessão inesgotável de fotos, chega minha vez. Sob a desculpa de querer um autógrafo, me aproximei. Já após a assinatura, eu, um tanto exitante, perguntei se Zizinho era melhor que o Pelé. Ele me olhou desconfiado. Contudo, com a mesma calma e reverência que impostava sua voz nas ondas do rádio ele me disse: "Não". De súbito, achei que ele, como toda a nação brasileira, estivesse me reprimindo pela pergunta. Aí, veio a continuação: "Na verdade, cinco jogadores foram os melhores. Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Pelé e Garrincha. Todos eles tiveram o mesmo nível. Foram fantásticos. Impossível eleger um"

Pronto. Aí estava o álibi final, tudo o que eu mais precisava para ter certeza que minha opinião não era uma mera iconoclastia vã. Se Luiz Mendes, que havia visto esses cinco fantásticos jogarem bola não era capaz de saber quem era o melhor, como, em todos quatro cantos desse país, o nome de Pelé é proclamado Monarca de um esporte com tantos virtuosos?

Desde então aquela frase ecoa na minha cabeça. Com a simplicidade de quem conversa no café-da-manhã, aquele senhor foi capaz de mudar minha maneira de ver o mundo. Percebi que não se tratava de um olhar adolescente e anarquista da realidade, simplesmente uma tentativa de reinterpretar verdades questionáveis. A partir daquela frase, tento ler por trás das linhas, procurar outros pontos de vista, desconstruir imagens sacras. Uma tarefa inglória, porém necessária. Provavelmente, ele nunca soube da importância daqueles trinta segundos de conversa. Obrigado, Luiz Mendes.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reencontro



O relógio passa em um ritmo incessante. Poucas são as chances que temos de recordar o passado, reviver os grandes momentos que, após longos períodos, tornam-se etéreos. A imaterialidade dessas memórias perdidas fazem com que as situações vividas passem, muitas vezes, despercebidas, como se nunca tivessem acontecido. Pessoas que outrora compartilharam experiências formidáveis tornam-se, com o correr do calendário, meros conhecidos. A mudança no papel exercido pelas personagens da vida real é ainda mais abrupta quando observado o caso de relações mal-resolvidas; aquela que antes fora protagonista passa pela posição de vilã e, após alguns poucos e demorados anos, hoje carrega o amargo papel de coadjuvantes.

Entretanto, algumas vezes ocorre um lapso capaz de romper a inércia. Pode acontecer em uma quarta-feira chuvosa, durante uma carona ou em qualquer fila do pão nas esquinas da vida. De súbito, como em um ato de vidência do passado, um olhar e um sorriso mostram-se familiares. Aquela estranha, que por vezes foi vista no corredor e respondida com um mero aceno, evoca lembranças de bons momentos. Acima de qualquer aspecto, voltam à tona as mais belas nuances de uma doce amizade.

Foi uma experiência semelhante a essa que os espectadores de Santos e Botafogo tiveram o prazer de sentir. Após meia década de brigas conjugais com os bons resultados, a Vila de Pelé recebeu um confronto de Alvinegros exuberantes. Um Santos com o artilheiro do campeonato e a maior promessa do futebol mundial enfrenta o time com o mais vistoso padrão tático e o jogador de mais identificação na realidade brasileira. Além de Neymar e Loco Abreu, o que os torcedores puderam assistir foi um dos mais belos lapsos de memória do futebol nacional: ali estavam presentes, indiretamente, Pelé, Garrincha e a antiguidade áurea da Mitologia Futebolística.

Dois emblemas que andaram por baixo na segunda metade do século passado, assombrados por fantasmas da imponência de seus passados e da incompetência de seus dirigentes. Dois times dispostos a garantir vaga no hall dos maiores da História. O resultado desse embate épico foi um show de habilidade. Com uma pintura do Camisa 11 santista e mais um gol saído dos pés de Borges, o time da Baixada Litorânea Paulista conseguiu arrancar os três pontos.

Embora longe da disputa pelo título brasileiro, o Santos conseguiu recuperar a eficiência e ganhar do Time da Estrela Solitária. A moral do Santos se eleva e aumentam as expectativas para o Mundial de dezembro, quando o inimigo vestirá azul e grená e será muito mais potente. Do outro lado, o Botafogo perde a chance de assumir a liderança a oito rodadas do fim. Não obstante, segue na briga pelo mais disputado título nacional das últimas década

Acaba o jogo. Torcedores retomam suas atividades, como se nada houvesse acontecido. Depois desses instantes mágicos de futurologia histórica restam apenas a dúvida. Existirá no futuro oportunidade de consertar os erros e reviver, de certa forma, os bons momentos do passado? Não se sabe. A única coisa que inquestionável é a relevância do que já foi vivido. Isso sim não poderá ser esquecido nunca.

Por Helcio Herbert Neto.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Série Marginalizados: O Quinto Beatle

Para ouvir ao som de: John Lennon - Sunday Bloody Sunday

Bob Bishop, olheiro do Manchester United em 1961, foi à Irlanda incumbido de achar um bom jogador; com sorte e olhar apurado, um craque. Jamais passou pela sua cabeça voltar para a Inglaterra com um mito na bagagem.

Bons jogadores jogam acima da média, craques ultrapassam essa esfera, e mitos são raríssimas personalidades que mudam a história do esporte para sempre. Eles inovam a forma de jogar de uma geração inteira, fazem estilo próprio, quebram paradigmas da bola e riem do impossível.

Com 17 anos, o jovem de Belfast estreava no profissional formando um lendário trio ofensivo com Bobby Charlton e Denis Law, que imortalizaria os Diabos Vermelhos. George Best era único, mas não só (e exatamente por isso) dentro de campo. Um vanguardista do marketing pessoal e um precursor do consagrado “jeito boleiro”.

Best era um Garrincha europeu. Driblador, de muitos zagueiros e incontáveis mulheres; sedento, por gols e por álcool. Nas quatro linhas, era um presente divino, uma obra completa, minimamente perfeita; fora delas, uma cólera insaciável, um ser humano eternamente vazio.

O futebol incontestavelmente genial, o tipo bonitão, a megalomania e a tendência a soltar pérolas para a imprensa o fizeram o primeiro grande popstar do mundo da bola. Na época em que os “quatro garotos de Liverpool” estouravam sucessos no mundo inteiro, os tabloides ingleses estampavam, jogo após jogo, fotos de Best sob a alcunha de “O Quinto Beatle”, tamanha a popularidade que atingiu.

Os 90 minutos não bastavam mais para o ponta-direita norte-irlandês. Ele queria o foco em tempo integral; nos gramados e nas noitadas, nos jornais e na publicidade, nos uniformes e nas roupas de marca. Passou a investir em casas noturnas, lojas de grife e o que mais lhe rendesse dinheiro e fama.

Diriam que tinha tudo que se pode querer; a vida dos sonhos. Mas não. Bebia para olvidar suas responsabilidades terrenas e lidar com o peso de ser um Deus. E dormia com muitas mulheres para lembrar que estava vivo e para esquecer da vida. Fora dessas contradições, não encontrava fadas.

O talento sobrenatural foi consumido pela cabeça fraca, e uma trajetória que indiscutivelmente estaria nos anais do futebol foi recalcada pela história do esporte. A falta de oportunidade de disputar uma Copa do Mundo, as constantes críticas sobre sua personalidade e as várias pausas ao longo da carreira fizeram com que a “fábula” de Best se esvaísse na linha tênue do tempo.

Em 2005, bem depois de ter se afastado dos campos e do foco, a lenda britânica foi internada em estado grave, pois não havia se afastado do álcool. E foi assim que seu maior companheiro ao longo de toda a vida o traiu, entregando-o à solidão pavorosa da morte. Mas não antes de George Best fazer seu “último brinde”, como assim definiu. Na cama do hospital, ouviu seu amigo Denis Law ler uma carta que continha uma usual mensagem de apoio e a assinatura que tornou a ruína da vida menos dolorosa: “Do segundo melhor jogador de todos os tempos, Pelé”.


Por Beto Passeri.

domingo, 9 de outubro de 2011

Não há Casa Pré-Fabricada


Para ler ao som de: System Of A Down - B.Y.O.B

Prefeitura, Governo do Estado, Governo Federal, FIFA e o Comitê Olímpico Internacional traçaram um projeto infalível. Em três anos, dois eventos esportivos gigantescos no Rio de Janeiro. Uma grande oportunidade para o desenvolvimento. O programa previa o velho modelo proclamado na bandeira nacional: ordem para o povo e progresso para a burguesia. A população seria deixada de lado no processo. Um Estado de Exceção entraria em vigor, a soberania nacional seria suprimida em virtude dos espetáculos que a cidade irá receber.

Contudo, o exercício de futurologia das autoridades responsáveis pela organização dos espetáculos se mostrou incorreto. De súbito, surgem focos de resistência em diversas esferas sociais. A promessa de melhorias no cotidiano dos brasileiros se concretizou como uma quimera. Os questionamentos tornam-se constantes. Surge um desconforto irremediável na relação entre as organizações esportivas internacionais e os governantes.

A tentativa de limpeza promovida pela prefeitura do Rio gera reações internacionais. Os corredores viários que ligam pontos de extrema importância para os eventos, como o Aeroporto Internacional Tom Jobim e a Barra da Tijuca, região que concentra grande parte dos jogos das olimpíadas, realizam remoções desordenadas, que violam leis e a dignidade de várias famílias cariocas. A população local, por meio de vídeos que já superaram os dois mil acessos no youtube, abriu os olhos de organizações de Direitos Humanos internacionais. Após a grande repercussão, ONU investiga a maneira como os moradores têm sido retirados de suas moradias.

A coalisão da FIFA, do COI e dos políticos locais havia planejado uma realidade para o Rio de Janeiro. Construíram uma projeção. Entretanto, não há casa pré-fabricada. A população não aceita as imposições das autoridades. O Mundo das Idéias é cruel. Engana românticos e ingênuos. E acreditar que os cariocas acompanhariam passivamente mandos e desmandos arbitrários é uma ingenuidade que não será perdoada.


Por Helcio Herbert Neto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Primavera dos Povos


Regina repousou a xícara de café puro desequilibradamente sobre a mesa da cozinha, enquanto passava o olho pelo jornal à procura de novas notícias. Não ia trabalhar. O banco havia entrado em greve e ela rezava em si por um reajuste que cobrisse pelo menos a inflação iminente. Leu o que não agradava - “os seis maiores bancos que operam no Brasil lucraram R$ 25,9 bilhões no primeiro semestre de 2011” – e desceu para checar a correspondência.

No térreo, só o radinho de pilha do porteiro ligado e o pequeno Maicon brincando de ajudar o pai no serviço quebravam o clima lúgubre daquela manhã de terça-feira. O menino correu, sorridente, e denunciou suas ‘férias’. Severino girou lentamente a respeitável barriga para corrigir o filho a tempo.
- É, dona Regina, os professô num tão querendo mais trabalhá por merreca não – disse abafado pelo bigode grisalho.

Nada de cartas na caixa. Foi quando ela se lembrou de ter visto algo estranho sobre Correios no periódico, e sentiu uma espécie de compaixão oficial por aquela gente parva e por si mesma.

Subiu no elevador com Sérgio, seu vizinho de baixo, e, em vinte e cinco segundos, não falou sobre o tempo que tinha virado, mas descobriu que o mestre de obras também não ia trabalhar e o porquê lhe soou familiar. Os anônimos que ajudavam a erguer o monumento de R$860 milhões para a festa em 2014 não recebiam os R$160 de cesta básica que queriam. Não tinham plano de saúde e ganhavam comida estragada na hora almoço.

À noite, logo após o jantar, Regina deitou junto ao marido e ele achou estranho. Consumida por um medo visceral e inexplicável, tratou de procurar conforto no ombro sempre firme do homem. Não achou ruim ver esporte na tv àquela altura. Achou que, se tudo estava saindo dos trilhos, se algo estava balançando, queria ver os robóticos atletas milionários promovendo algum espetáculo.

Não mais. No canal internacional, a poderosa liga de basquete americano estava estagnada. Ele achou estranho, mudou. Gostava das raquetes também, mas os tenistas não apareceram para exibir seus fortes patrocínios. Não toleravam mais as jornadas desumanas de jogos e as lesões seguidas e irreversíveis. O modelo esportivo ruíra.

Um olhou para o outro. Ele sabia que a Justiça Federal logo estaria na mesma e então poderia passar mais tempo em casa. Ela suspirava, aliviada, por fazer parte do mesmo mundo cretino que as estrelas internacionais. Entre os dois, harmonia. E ali, nos lábios do proletário, um beijinho de anarquia.


Por Beto Passeri.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fagulha no palheiro

Uma hora algo queima. Não de repente. Vai fritando aos poucos.

Pode ser uma frustração, um desejo que não se realizou. E pode ser defeito do sistema. Um alimentando o outro. Abrasando.

Por exemplo: quer ser artilheiro, craque com a dez, armador clássico, lançador, dono de arrancadas e dribles, passes de sinuca.

Desde pequeno tem talento para assumir o comando do ataque, o controle do meio-campo. O destino que carrega no nome.

Mas ninguém reconhece. No par-ou-ímpar, mais novo, vai pra zaga. Na peneira, tímido, vai pra zaga. No juvenil, sem lugar no meio e na frente, vai pra zaga.

E agrada. Claro, joga melhor que os zagueiros. Muito melhor.

Nunca mais sai de lá. Desarma. Marca. Tira a bola e passa pra outro brilhar, pro armador, pro meia, pro atacante, pro craque, pro artilheiro.

Nada de lançar, driblar, encantar. Só combate, cerca, impede as melhores jogadas.

Desfaz o que sempre quis fazer.

O reverso do seu sonho.

Nasceu pra enfrentar o mar – mas é faroleiro.

Zagueiro. E dos melhores. Titular, campeão, seleção, Europa.

Casa, carro, dinheiro, conforto.

Mas lá dentro um chip vai fritando.

Esquentando.

Acaba pegando fogo.


LUIZ GUILHERME PIVA (blog do Juca Kfouri)


Por Beto Passeri.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Só quem ouviu 'Aroud the World' de perto


De longe, na comodidade do sofá, tudo parece mais leve. Muito mais fácil, basta pressionar o botão do controle remoto e pronto. Outra realidade começa e deixa para trás todas as experiências sensoriais que o canal passado trazia. Assim faz a maior parte da população mundial, privada por condições econômicas, sociais, políticas, físicas ou, simplesmente, devido a epidemia de preguiça que surge da televisão. Para essas pessoas, a vida é como uma paisagem.

Entretanto, do outro lado da lente, estão os que realmente vivenciam aquele mundo. Que sentem, pelo tato, todos os aspectos trazidos por aquele universo. Diferentemente dos espectadores, os agentes são, de certa forma, mão-de-obra e matéria-prima da História. Eles entendem verdadeiramente as emoções que envolvem os fatos. Eles são parte da alma do momento.

Os Profetas de chinelos felpudos tinham convicções irredutíveis sobre o Rock in Rio. Eles acreditavam que se tratava de uma imitação barata dos eventos originais. Um festival que só trazia uma marca forte. Os grandes analistas de poltrona, de longe, foram enfáticos: shows fracos serão a tônica do evento que retorna ao Rio de Janeiro após um período de dez anos. Distantes do coração pulsante da música que ia contagiar a cidade, eles viam toda a repercussão como simples efeito publicitário.

A análise acomodada acontece em diversos tipos de espetáculo. Já faz algum tempo que o hábito de realizar a narração em um ambiente outro que não o Estádio se consolidou no Brasil. O locutor, enquadrado pelas limitações que a imagem que as câmeras transmitem, fica engessado, distante da atmosfera vivida pelos torcedores durante a partida. Cada vez mais monótonas, as transmissões se transformam em apenas mais uma peça do mosaico televisivo, da passagem incessante de canais que conduz, irredutivelmente, ao sono.

Apesar das obscuras e questionáveis armações políticas que estavam envolvidas no evento, como o apoio financeiro massivo e desnecessário da Prefeitura carioca na produção, o Rock in Rio é uma chance para uma multidão de vivenciar, de pôr os pés no chão e os ouvidos nas ondas sonoras de grandes artistas que influenciam o pensamento global. Estar sob o Palco Mundo naqueles momentos é uma oportunidade única para uma geração.

É inadmissível analisar o que acontece nos Estádios pela televisão. É impossível entender o que aconteceu ontem, durante a apresentação do Red Hot Chili Peppers, sentado na frente da TV. Apenas os torcedores de arquibancadas sabem o verdadeiro sentido do esporte. Somente aqueles que ouviram 'Around the World' de perto sabe o que significa o Rock para a cidade do Rio. Quem esteve lá saiu com a sensação de dever cumprido. Junto com os regenerados californianos, que após uma passagem fraca na edição de 2001 fizeram um show histórico, aqueles cem mil roqueiros molhados foram contagiados pela convicção de que a vida é bela ao redor do mundo.

Por Helcio Herbert Neto.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Olhar estrangeiro


Um fato me chamou a atenção nesta manhã. Passando o olho pelos blogs e pelos portais de notícias, descobri que o principal jornal da Argentina, "El Clarín", publicou ontem, em seu site, uma matéria detalhada sobre a joia brasileira em evidência, Leandro Damião.

Na matéria que pode ser lida aqui na íntegra, o periódico conta a trajetória do atacante e exalta a rapidez com que o "novo craque" mudou do anonimato dos campos de várzea para conquistar títulos e adquirir status de ídolo num clube grande, o Internacional. O jornal se mostra perplexo sobre como o atleta fez para, em tão pouco tempo, passar de "los partidos de 30 reales" (ele chegou a ganhar essa quantia por jogo, ainda em São Paulo) "a este Damiao que parece capaz de cualquier fantasía y de mil goles".

A matéria, por fim, se derrete ao lembrar a jogada mágica que certamente a motivou - a lambreta aplicada pelo atacante brasileiro em Emiliano Papa no confronto entre Brasil e Argentina pelo Superclássico das Américas, na última quarta-feira - e encerra com um depoimento humilde do jogador colorado sobre a sua ascensão no mercado mundial da bola.

É evidente que a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina fica só nos gramados e que os jornais de ambos os países destacam o que há de melhor no outro. Mas isso não ocorre com tanta frequência quanto deveria e acho interessante postar essa matéria, não só para parabenizar os hermanos e "El Clarín" como também para enaltecer o câmbio de informações. Quem não quer saber o que acham de nós?


Por Beto Passeri.

Forma e Conteúdo


De longe, na mira, a mais bela mulher da noite. Entre comentários de amigos e pessoas próximas, trata-se de uma unanimidade. Ela é a mais encantadora. Com os olhares e os artifícios do velho e conhecido método de abordagem, ela parece se aproximar. Sim, a mais desejada da noite decodificou os sinais e, de maneira também simbólica, ratificou seu interesse. Nessa hora, por efêmeros e, ao mesmo tempo, eternos instantes, é apresentado um horizonte esperançoso para aquela noite. Conhecer uma atraente e, à primeira vista, interessante garota parece ser a certeza do sucesso.

Sob a intorpecência da madrugada, tudo perfeito. Que ótima noite, constata ele, em meio às roupas jogadas na cama e ao travesseiro, sobreposto ao rosto. Com o sol da manhã ultrapassando as persianas, uma idéia lhe vem a cabeça. Reencontrá-la seria uma alternativa plausível de reviver os bons momentos já perdidos no tempo. Parece que para ela, o encontro pretérito também foi positivo. Após utilizar algum dos meios de comunicação, que não faltam nesses nossos dias, marcam de se encontrar.

Logo depois dos primeiros instantes, uma sensação desagradável toma o, como se pode dizer, casal. Não há mais a mesma sinergia. Aliás, a falta de proximidade entre ambos os mundos parece infinita. O tempo demora a passar, o barulho dos ponteiros do relógio tem o volume sonoro de uma sirene. Um suspiro e um alívio. Finalmente aquele mal-estar passa. Vão embora. Por educação, fica acordado um novo encontro que nunca irá acontecer. Ambos notam-se sós. Seduzidos por uma forma, repelidos por um conteúdo.

Fugindo da velha discussão acadêmica que acompanha, há séculos, a Filosofia. Trata-se de uma das mais evidentes dicotomias do planeta, por isso ela é comumente observada nos meios de comunicação. Basta sentar na frente da televisão e seguir processo incessante de passagem de canal em canal. O que mais te prende? O conteúdo apresentado ou o modo como ele se apresenta? A mensagem em si ou os aspectos do meio pelo qual ela passa até ser capturada por nós, os receptores?

Como um temeroso enamorado, certamente o que nos prende, inicialmente, é o desenho, em seu sentido mais subjetivo. Belas formas prendem a atenção de pessoas andando na rua e de espectadores de qualquer tipo de mídia. Isso explica o massivo investimento em profissionais de psicologia, especialistas em cognição humana. Explica também o crescente interesse dos estudantes de comunicação em áreas como a fotografia e o audiovisual. O mercado encaminha os futuros profissionais para o espetáculo.

No jornalismo esportivo isso também é evidente. A tática e a estrutura do jogo são esquecidas. O lado romântico e poético do jogo é posto de lado. As nuances políticas e econômicas que circundam confederações e clubes são abandonadas. Valoriza-se muito mais a eloquência, a aparência e a desenvoltura dos apresentadores no ar. O jornalismo se torna entretenimento, como um show de auditório dominical ou um videoclipe.

Como em um segundo encontro, ao analisar mais profundamente, percebemos a superficialidade dos assuntos tratados. Sempre os mesmos discursos, os mesmos conceitos, unanimidades. Belas unanimidades burras. A falta de visão questionadora que esse ambiente proporciona é nocivo àqueles que estão assistindo, que não têm sua visão crítica instigada, não exercitam sua habilidade de questionar. Porém, quem mais perde com isso é o próprio esporte. Sem discussões inteligentes, mantém-se inerte, à mercê dos dias e do tempo.

Nesse cenário apocalíptico, admiráveis são os pontos fora das curvas. Os jornalistas que conseguem expôr opiniões divergentes, discutir questões pertinentes e estimulantes. Admiráveis também são aqueles que atribuem ao meios, as formas pelas quais transmitem suas mensagens, sentidos que contribuem para essa visão crítica da sociedade. Por mais que escassos, os exemplos existem na programação e devem ser louvados. E prestigiados.

E quando há a identificação, mais difícil se torna o adeus. Seja entre o público e o programa, seja entre o casal de amantes. Por mais que magnetizados, nos primeiros segundos, pela forma, é o conteúdo que mantém, a cada instante, os dois mundos em contato. Sem essa identificação com essa essência do que está sendo apresentado, a audiência fica saturada das mesmices, das superficialidades e troca de canal. Um bom conteúdo facilita o estabelecimento de pontes entre idéias, que são muito mais concretas do que as estabelecidas por questões estéticas.


por Helcio Herbert Neto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Série Marginalizados: O Radioativo


Em meados da década de 70, o mundo vivenciava o auge da Guerra Fria. Divididos entre o capitalismo norte-americano e o socialismo soviético, os países tomavam partido e rezavam à noite, na cama, pedindo o fim daquela angústia. O último golpe tinha sido forte: os EUA mandaram, em 69, Apollo 11 à Lua, e o mundo assistiu, atônito, aos passos de Neil Armstrong entrarem para a história. De lá, o astronauta pôde ver os soviéticos se encolherem no globo, fracassados.

Determinada a reagir, a URSS direciona suas forças e seu dinheiro para a “corrida armamentista” e abre, no norte da Ucrânia, a usina nuclear de Chernobyl. Dezesseis anos se passam, Irã, Iraque, Afeganistão e Vietnã viram o palco do horror, o cinema e Sylvester Stallone impulsionam os ideais estadunidenses e, quando Gorbachev assume, os socialistas já não tem forças para dominar o planeta.

Na madrugada gelada de 26 de abril de 1986, um reator apresenta problemas naquela, então inútil, usina de Chernobyl. Uma nuvem quatrocentas vezes mais radioativa do que a bomba atômica que dizimou Hiroshima avança, incontrolável, pelo leste europeu. O caos toma conta de parte do Velho Continente e multidões deixam suas casas sem tempo para fazer as malas.

Na pequena vila de Dvirkivschyna, pessoas fogem desesperadas e, entre elas, um menino de nove anos corre com os pais sem saber para onde e nem por quê. Nas mãos, uma bola de futebol murcha era o que confortava o pequeno Andriy Shevchenko em meio àquele terror.

Nove anos após o desastre, Shevchenko não estava perto de esquecer o trauma, mas levava sua vida bem e estreava na equipe profissional do Dínamo Kiev como uma das maiores promessas do país. Cada vez mais lapidada, a joia tornou-se uma realidade ao classificar o time ucraniano para as semifinais da Liga dos Campeões contra o campeão Real Madrid, marcando três gols nos dois confrontos. A equipe não foi campeã, mas o caminho do atacante não podia ser outro que não um gigante europeu. E assim Shev se foi para o Milan, sedento por novas conquistas.

Gol após gol, o ucraniano parecia afetado pela radiação de Chernobyl, como um x-man da bola. Nenhum zagueiro o marcava bem e nenhum goleiro parava suas bombas. Em sete temporadas, ganhou cinco títulos, incluindo a Liga dos Campeões; marcou 173 gols em 296 jogos e levou o prêmio Bola de Ouro, em 2004.

Nem só de Pelés e Romários se faz o mundo da bola, e Shev chegou ao seu limite. Dali em diante, seriam só passagens apagadas pelo Chelsea e pelo próprio Milan, mas que não borraram a história desse jogador extraordinário. Farto da competitividade e dos estrelismos nos grandes clubes europeus, Andriy, como todo bom filho, voltou ao Dínamo para ser idolatrado pelos fãs conterrâneos e está lá desde 2009.

Seu futebol técnico e explosivo o fez o maior jogador da história de seu país. Sem muita tradição, a seleção da Ucrânia se classificou para sua primeira Copa do Mundo em 2006, graças ao eterno 7. Não foi uma Copa brilhante, é verdade, mas Shev só caiu com seus compatriotas nas quartas-de-final e, assim mesmo, para a futura campeã Itália.

Recentemente, anunciou sua aposentadoria: vai parar depois da Eurocopa 2012, justamente na Ucrânia. Às vezes, a história apronta umas coisas engraçadas e que nos fascina. Quem sabe o menino que fugiu, apavorado, da radiação há 25 anos não nos brinda ano que vem, seguro, conduzindo seu país a algum feito memorável.


Por Beto Passeri.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um Brado Retumbante



Um feriado frio. O velho sofá rasgado. Mais um Pré-Olímpico de Basquete Masculino. Descrente, lá vou eu apoiar aqueles jogadores, aquelas mesmas figuras que marcaram esse hiato de títulos, esse período em que o Brasil ficou fora de Olimpíadas e longe de boas posições em Campeonatos Mundiais. Por coincidência, foi exatamente nesses tempos de seca que eu me tornei fã do esporte da bola laranja, o que me torna um sofredor convicto.


Um jogo contra a Argentina em Mar del Plata. Sim, a Seleção da Década. Do Mestre Ginobili, que foi uma das pedras fundamentais na colocação da cidade de San Antonio no mapa das grandes equipes da Liga Americana de Basquete. De Scola, com presença inconfundível no garrafão, que gera tremedeiras em marcadores ao redor do mundo. De Oberto, Delfino, Prigioni, Nocioni. Um cenário perfeito para a inércia: mais uma derrota brasileira e a continuação de meu sofrimento, tudo indicava.

E foi só olhar para a feição dos jogadores para que as previsões ficassem mais sólidas. Ao notar mais uma derrota de Tiago Splitter na bola ao alto, ao perceber a seriedade do Alex, o silêncio de Marcelinho Huertas, vi que seria mais um daqueles sofridos jogos de Pré-Olímpico. O sonho de uma vaga em Londres 2012 ficava mais longe, bastava fotografar aquela seleção para constatar.

Um barulho ensurdecedor vinha da torcida. Os argentinos também pensavam como eu. A vitória era certa para aquele time imbatível. O primeiro quarto foi equilibrado, como sempre. Era rotina: começo do jogo, a Seleção Verde e Amarela endurecia, dava pinta de vitoriosa. Mas, ao final, era sempre o mesmo penar. Foi quando notei que não havia nenhum tom de amarelo em jogo.

A Camiseta usada pelos brasileiros era branca. Sim amigos, acredito que para muitos passou despercebido. Não é de agora. Lembro-me bem de que no Mundial do ano passado a seleção já usava a cor branca. Entendi também que toda aquela introspecção da imagem dos jogadores era um reflexo da maturidade daquele grupo já cheio de cicatrizes. Não havia nenhum tipo de temor, de medo. A mudança de uniforme conspira tradicionalmente para uma mudança de espírito de uma equipe.

Depois da derrota para o Uruguai na final da Copa de 50, a seleção brasileira de futebol resolveu mudar de uniforme. Tornou-se a Seleção Canarinho, utilizando a cor amarela na vestimenta de seus atletas. A velha camisa branca ficou aposentada. A partir de então, vieram as vitórias e a História vitoriosa e Pentacampeã que todo mundo conhece.

Enquanto pensava nisso, os minutos foram passando. O Brasil seguia com brio, com gana, sempre próximo da vitória. Quando olhava para o placar, estava tudo muito parelho. Contudo, ao observar a partida, já era sensível a diferença entre as duas equipes. Os astros argentinos foram surpreendidos pela vontade de vencer que aquela equipe que vestia branco trazia no peito. Uma defesa sólida e um banco de reservas com jogadores muito valiosos estremeceram os campeões olímpicos de 2004.

Entretanto, mesmo estremecidos eles são fortes. O jogo foi levado até os últimos instantes. A dificuldade imposta pelo anfitriões gerou uma atmosfera única, um aspecto de decisão para aquele jogo que não passava de mais uma classificatória para as semifinais que definirão que vai para as próximas olimpíadas. No dia da Proclamação da Independência do Brasil, uma partida para entrar na ontologia do esporte nacional.

No fim deu Brasil. Repito: O Brasil ganhou da Argentina. Acabou o jogo. Não consegui entender, não acreditei. Foi quando vi Marcelinho Machado, 36 anos. Em Pré-Olímpicos desde 1999, só teve infelicidades. Ele sorria. Sem aquelas pernas bambas, sem a surpresa com o que estava acontecendo, eles já sabiam que era possível. Aquele momento era o alicerce do começo de um campanha olímpica.

Contudo, essa desconfiança que me marcou me fez aguardar a classificação. Após o Jogo da Independência, no sétimo dia de setembro, escrevi quase tudo isso que vocês já leram. Mas seria mais um fracasso, mais um engano? Aguardei o confronto contra a República Dominicana, o derradeiro confronto pela vaga.

Mais um grande jogo. Novamente vestidos sob os tons da alvos das letras da bandeira nacional, os brasileiros lideraram o jogo em todods os instantes. O adversário, com champanhes e cartas de congratulações nos vestiários, a aguardar a vitória, padeceu perante a frieza do basquetebol europeu dos tropicais. Um jogo coletivo, vistoso, rápido e moderno venceu a qualidade individual dos pivôs caribenhos.

Marcelinho Machado, craque da partida, arremessou a última bola sob lágrimas. O narrador gritou, era o fim. O encerramento de um período de trevas para um dos mais praticados esportes do país. Trevas que impuseram a ditadura de más administrações de cartolas, de esquecimento do basquete. O Brasil retorna aos Cinco Arcos áureos sem uma grande estrela, mas com uma constelação capaz de expurgar a sombra de dias ruins.

Acreditei. Lembrei dos dias que passei a torcer por esses rapazes, os pobres gigantes. Era a hora deles. A prova de que as condições não fazem o homem, de que nada está traçado. Não importa que a competição aconteça em terras inimigas, que os nossos grandes atletas não participem, que tenhamos uma burocrática, incompetente e corrupta confederação. Fazemos a História. E foi isso que aqueles 12 gigantes, sob a batuta de um argentino, fizeram nessa semana: escreveram um dos mais belos capítulos no Livro dos Mitos Desportivos Verde e Amarelo (e Branco).


por Helcio Herbert Neto.